Lágrima
Lágrima, era o nome dela, por mais interessante que seu nome pudera parecer, ele a foi dado pelo seu pai, pois sua mãe não resistiu ao parto e como uma lagrima, quente e triste, ela nascera.
Seu pai distante e sempre muito ocupado, é culpado de Lágrima não reconhecer o toque físico, nunca havia sido carregada em braços quentes, tão pouco conhecia afeto, surpreendia a todos pelo fato de que ela sobrevivera sem esforços.
Lágrima - a sem vida, era como ela mesma se definia em seus próprios pensamentos, sempre obscuros e longínquos, ela podia sentir que absorvia a vida das "coisas", como uma sangue suga de vitalidade.
Seu pai sempre na tentativa de suprir sua ausência, presenteava Lágrima com animais de estimação, primeiro foi um aquário, mas bastou Lágrima tocar a água e os peixes pareciam desistir de viver, podíamos ver eles respirando, mas era como se eles não quisessem, eles ficavam lá, parados, até que apareciam virados, de cabeça para baixo, boiando. Então, Lágrima estava sozinha novamente.
Seu segundo animal de estimação foi um passarinho, seu pai escolhera o mais colorido e cantante, sua gaiola branca e alta, parecia separar o passarinho de Lágrima e não do mundo lá fora. Ele sobreviveu, como Lágrima havia sobrevivido, porém não cantava mais, suas penas não eram mais coloridas, cinza e mudo, era fácil não perceber sua presença, logo Lágrima perdera o interesse.
Seu terceiro animal de estimação foi um cachorro, pequenino e barulhento, era como Lágrima o descreveria, ele a encarava e latia, ao menor sinal de movimento de Lágrima, ele corria, como se fugisse, Lágrima gostava, sempre achava que ele estava brincando e assim fazia, corria atrás dele, até estar cansada. Até que um dia, Lágrima não desistiu e conseguiu alcança-lo, com um simples toque, podíamos ver a vida escorrendo entre os dedos de Lágrima, sem um rumo aparente, porém para fora do animalzinho. Seu passarinho cantava alto e sem parar nesse dia, o que era estranho, pois não o fazia a tempos, era como se alertasse ao cachorrinho o destino que o aguardava.
Lágrima não estava mais sozinha, estava na companhia de seu passarinho cinza, silencioso, somente com o barulho de sua mente, isolada mais uma vez.
Lágrima só conhecia o mundo através de sua janela, porém foi aos 18 anos de idade que decidira sair de casa pela segunda vez, a primeira vez foi no enterro de seu pai, quando Lágrima primeira vez o tocou, deitado no caixão, bem arrumado, era como se seu toque amaldiçoado tivesse sido neutralizado, pois naquele corpo não havia alma que o deixasse.
Lágrima saiu de casa, todas aquelas luzes pareciam olhos a encarando, de luva de couro, casaco, calça e sapatos, a noite fria não parecia um acaso. Lágrima parecia perceber todos jovens que passavam por ela, sempre rindo, abraçados ou extremamente próximos, faziam Lágrima ter enjoo só de imaginar se fosse ela, ali, abraçada. Ela ficou na rua por horas, caminhando, parecia já estar familiarizada, até que foi abordada por alguns meninos que procuravam por um bar especifico, Lágrima nunca havia sentido essa sensação de coração pulsando rápido, respiração ofegante, estomago frouxo, Lágrima sentira pela primeira vez ansiedade. Os meninos de riso frouxo, logo sumiam na noite fria, Lágrima estava disposta a acompanha-los, sabe-se lá o que eles poderiam fazer ela sentir, então correu e gritou:
- ESPEREM.
Eles se viraram e Lágrima se aproximava em direção a eles em uma velocidade considerável para aquelas pernas finas.
Lágrima experimentou bebida alcoólica, dançou ao som daquela música alta e estridente que tocava, jurava poder ouvir alguém cantando, mas o falatório abafava quase toda melodia, mas o barulho a bastava.
Quase no final da noite, Lágrima ainda dançava em torno de todas aquelas pessoas na pista dançando, a luz quase inexistente, por mais que a encostassem, ela estava aparamentada, nada acontecera, seus pensamentos já não eram mais obscuros, só pensava em usar o banheiro e era tudo que ela pensava. Ao retornar a pista para mais uma rodada de dança embaraçosa e fora do ritmo, Lágrima percebeu que havia perdido sua luva, enquanto todas aquelas pessoas passavam e esbarravam em sua mão, seus pensamentos obscuros retornaram, mais fortes, mais pesados, que ela sequer conseguia carregar sozinha. Um rapaz lindo, cumprido, parecia descer do céu ao se abaixar para ajuda-la, Lágrima estava sentada no chão, pensando em quantas pessoas ela já havia machucado só em encostar naquela noite, quando o rapaz lindo segurou sua mão e a puxou contra seu peito e a levantou do chão gelado, ele não parecia diferente, parecia vivo, quente, era como se a sua maldição houvesse cessado, não feria ninguém, Lágrima não podia entender, estava confusa, apaixonada, mas mais ainda, ela estava preocupada, será que ela havia imaginado aquela noite? Estava sonhando acordada?
E como em um sonho, acordou em sua casa, mas o cheiro da bebida derramada ainda estava em seus sapatos, ficou lá parada sentada em sua cama, fitando a parede, tentando entender, quando sente uma mão em seu obro nu e uma voz rouca perguntando se havia algo de errado, Lágrima sentiu como se um frio subisse por sua espinha e em um ato inesperado, se jogou contra a parede, agora fitando o rapaz em sua cama, com olhos arregalados, Lágrima havia certeza de que aquela noite não foi imaginada, era real.
O rapaz lindo, parecia não desistir de Lágrima, saíram outras vezes, dormiram juntos, se conheceram melhor e logo estavam namorando, grudados, Lágrima parecia não se lembrar de seu obscuro passado, o rapaz lindo fez Lágrima se sentir viva e logo se sentiu vivo também e foi quando Lágrima percebeu que não o havia amaldiçoado com seu toque, ele já estava vazio quando a conheceu, todos estavam, por isso naquela noite nada deu errado. Então seus olhos se encheram de lagrimas, ela sabia que o machucaria agora, Lágrima não queria deixa-lo, mas sabia que existia a possibilidade de que o rapaz lindo se sentisse vivo sem ela ao lado.
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